Livreiro do Guaíba

Manifestações populares

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O ano passado foi profuso de revoltas e manifestações populares pelo Brasil afora e tudo indica que poderão se repetir em 2014, dependendo do resultado da copa do mundo. Essas coisas importantes, como o futebol e Big Brother, mexem muito com o humor popular. Acredito que todas as formas de manifestações sejam justas e legítimas, o que não quer dizer que sejam corretas e busquem alcançar objetivos claros. Sempre há um esperto por trás de um grupo de manifestantes, buscando alguma forma de chegar ao poder ou levar alguma vantagem com aquele movimento. Isso não é nenhuma novidade. Movimentos populares sempre foram utilizados como massa de manobra em todas as partes do mundo.

Na Bolívia, no início do século passado, os políticos liberais apoiaram um levante popular que pedia direitos para os indígenas. Com a ajuda dos índios, derrubaram o governo e depois que assumiram declararam os índios seres não-humanos que podiam ser escravizados ou eliminados. A declaração do novo governo deu início a um dos maiores genocídios das Américas.

Na mesma época no Brasil, a população exaltada apoiada pela imprensa e por setores da política, depredou lojas, virou e incendiou bondes, fez barricadas, arrancou trilhos, quebrou postes e atacou as forças da polícia com pedras, paus e pedaços de ferro. Tudo muito parecido com o que ocorreu no ano passado. O objetivo daquela revolta também era mudar o Brasil. A população fora convencida por alguns ardilosos da política e da imprensa de que o governo agia mal ao instituir a vacinação obrigatória contra a varíola. O poder político enraizado não simpatizava com as mudanças propostas pelo governo para acabar com a peste que dizimava a população. Para um seleto grupo de brasileiros, tudo ia bem como estava, "enquanto médicos sangravam moribundos e os curandeiros espantavam a varíola com fumaça de bosta de vaca"*. Oswaldo Cruz era apresentado na imprensa como um grande vilão que queria vacinar o povo à força, que as vacinas não faziam efeito que era obra do demônio e de um governo autoritário, etc. etc. etc. Por muito pouco não derrubaram o governo.

Confesso que temo a turba enfurecida da mesma forma que temo a estupidez da unanimidade. Assim, quando o povo sai às ruas, quebrando tudo em suas manifestações é um sinal de que algo falha na política e há unanimidade em demasia nos parlamentos, abrindo brechas enormes para as forças ocultas, conquistarem espaços nos porões do poder.

* Eduardo Galeano, O século do vento, página 35, L&pm Editores.

 

Publicado no Jornal Nova Folha de Guaíba em 17 de janeiro de 2014.Capa Revista Revolta Da Vacina

Meus tabus

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Só teremos um passado se chegarmos ao futuro e dificilmente saberemos do passado de alguém se não o conhecermos com profundidade. O filme Tabu, de Miguel Gomes, trata entre outras inquietações, da nossa relação com o passado. Ele retrata Aurora, uma senhora idosa e temperamental que vive com sua empregada cabo-verdiana em um prédio de apartamentos em Lisboa. Com atitudes intempestivas e alopradas, ela envolve uma vizinha dedicada a causas sociais e humanitárias que, preocupada com a situação, transforma-se numa espécie de anjo da guarda da velha senhora. Ela livra-a das enrascadas e procura descobrir uma forma de ajudá-la.

Aos poucos, surge um oculto episódio do passado: Uma história de amor e crime vivida numa África de filme de aventuras, que conta também a história do início do fim do império de Portugal no continente africano.

Por vezes, temos a impressão de que os velhos sempre foram velhos. Surpreende-nos a possibilidade de uma senhora idosa e à beira da morte, ter vivido uma intensa história de amor e aventura. Tabu, conta uma história que de certa maneira, nunca havia terminado. Um amor não resolvido. Simplesmente abandonado na imensidão da savana africana.

Escolher para ver Tabu, filmado em preto e branco com técnica de cinema mudo por portugueses, brasileiros e franceses nos subúrbios lisboetas e confins africanos, dentre as hollywodianas comédias de sempre não é para qualquer um. Mas recomendo mesmo assim. Ele nos lembra que enterradas nas areias profundas do tempo, muitas vezes amalgamadas com o duro cimento do esquecimento, encontram-se também nossas histórias de amor da juventude.

O cinema tem a peculiaridade de falar de coisas que não estão sendo ditas. Cada espectador faz a sua própria leitura. Eu diria que Tabu também fala da nossa sociedade quando mostra uma senhora que acaba se envolvendo com a vizinha idosa e temperamental, como se fosse da sua própria família. Quem ainda tem tempo para ver se o seu vizinho está passando bem? Muitos, já nem percebem se há pessoas morando ao seu lado. Enfim, se você for ao cinema e não estiver afim de ver o Bruce Willys correr atrás de bombas em Moscou, ou outra bobagem qualquer, arrisque Tabu. Um filme simples que substituiu a parafernália tecnológica e os efeitos especiais, por uma película em preto e branco, dotada de imaginação e inteligência. Ele oferece ao seu final, algo raro nas produções cinematográficas atuais, a oportunidade de sair do cinema com algo para pensar.

Ele fala de nós e do que fazemos com as nossas escolhas. Podemos lutar. Podemos desistir. Ou, como mostra o delírio inicial do filme, podemos nos deixar devorar pelos crocodilos causadores das nossas desgraças.

 

Publicado no Jornal Nova Folha de Guaíba em 16 de agosto de 2013

Meus Tabus

O colecionador de rolhas

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Encontrei meu amigo Alfredo no hall de espera do catamarã. Estava voltando para casa e trazia algumas garrafas de vinho numa sacola de papel cartonado verde. Trocamos alguns "comovais" e como vão as crianças e entramos no seu assunto favorito: vinho. Disse que levava algumas garrafas de seu Bordeaux favorito para tentar melhorar seu humor e diminuir sua decepção com a raça humana e com os caminhos do mundo moderno. Ele sempre foi um sujeito tranquilo e metódico inclusive para abrir uma garrafa de vinho. Seguia um ritual preparatório imprescindível para a perfeita harmonização do ato de beber um cálice da preciosa bebida, apreciada pelos humanos há pelo menos sete mil anos.

O catamarã chegou, embarcamos e nossa conversa continuou a respeito do vinho que acompanha os seres humanos nestes últimos milhares de anos.

Por alguns instantes ficou calado, por certo observando a beleza da ilha que deslizava ao nosso lado e ocorreu-me que foi num domingo desses, em algum inverno que não lembro o ano, em que ele orgulhosamente mostrou-me sua adega, especialmente instalada no porão, e demonstrou que uma das etapas mais importantes no ritual de abertura de uma garrafa, sem dúvida é sacar-lhe a rolha que o vedava de forma apropriada durante seu período de armazenagem.

Existem inúmeros tipos de sacarrolhas por este mundo afora e meu amigo expunha, pendurados por ganchinhos de metal, mais de uma dúzia desses apetrechos, cuja finalidade mor é retirar a rolha que tampa as garrafas libertando seu conteúdo para o deleite de aficcionados. Segundo ele, sacar uma rolha exige maestria, preparo, delicadeza, observação e até uma boa dose de perícia. "Um bom vinho não pode ser aberto, assim, como quem abre uma garrafinha d’água." Sempre frisava o meu bom amigo.

Passamos pela ilha e voltamos ao assunto,  desta feita com o motivo que o deixara tão descrente com a raça humana. "No mundo capitalista, não há nada que não possa ser feito um pouquinho pior para ser vendido um pouco mais barato. A chinelagem anda solta. Outro dia comprei uma garrafa de vinho que não conhecia e ela não tinha rolha. Acreditas? É o fim. O cúmulo. A treva. Isso é pior que aquelas bebidas em garrafas de plástico que deveriam ser proibidas de se denominarem vinho. Elas provavelmente contenham de tudo menos vinho."

Tive que concordar com ele enquanto levantávamos para descer do barco para terra firme. Atravessamos o atracadouro e na hora de despedir-nos ele arrematou:

"Abrir uma garrafa de vinho e não encontrar rolha é tão decepcionante quanto deve ser um sujeito que casa e só nas núpcias descobre que a noiva é um noivo. Na hora de tirar a rolha, você está ali, de sacarrolhas em prontidão e não encontra rolha nenhuma para sacar. Só uma mísera tampinha." Virou-se e desapareceu entre viajantes e turistas que chegavam à cidade.

 

Publicado no Jornal Nova Folha de Guaíba em 2 de agosto de 2013.

Siga-me para o inferno

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Após o culto "in memorian" de nossa mãe, eu e minha irmã resolvemos tomar algumas decisões que não podiam ser adiadas. Há momentos em que necessitamos transformar as lágrimas em saudade e fazer o que tem que ser feito. A casa onde crescemos, agora vazia, parecia ainda maior do que já fora. Restavam poucos móveis e precisávamos resolver o que fazer com aquele enorme sofá de quatro lugares, algumas cadeiras, móveis de cozinha, uma geladeira. Dividimos algumas tarefas. No canto da sala, sobre uma banqueta, estava o telefone que tantas vezes levou aquela voz saudosa até meu coração distante. Coube a mim a tarefa de solicitar o desligamento da linha.

Sempre ouvi falar das dificuldades que os consumidores encontram para descontinuar um serviço de telefonia, mas tive que encarar a tarefa.

No dia seguinte paguei a conta, fui para casa e preparei-me psicologicamente para a tarefa que já antevia árdua. Procurei sentar confortavelmente e estendi meus pés sobre a banqueta em frente a poltrona e revisei a minha artilharia de combate: uma conta telefônica, cpf da mãe, identidade. Antes de iniciar, voltei para a cozinha, pois tive a (ótima) ideia de jogar um saco de pipoca no microondas. Na passagem para o escritório servi um cálice de vinho. Voltei para buscar a garrafa. Sentei novamente, respirei fundo e disquei. Parece milagre, mas em apenas oito tentativas fui atendido. Ou melhor, quase fui atendido, pois tudo travou numa questão semântica com o atendente que queria saber se eu pretendia cancelar a linha ou desligar a linha. Pedi que ele me explicasse a diferença e a linha ficou muda.

Novas tentativas, apenas quatro dessa vez e uma voz jovial e prestativa se prontificou a resolver o meu problema. O questionário foi intenso e longo e foram necessárias explicações detalhadas do porquê a própria dona do cpf não estava fazendo o pedido do desligamento. Ao cabo de longos minutos de acareações, finalmente o processo avançou.

Tudo entendido, a dona do cpf faleceu, o telefone será desligado em vinte quatro horas e a atendente arrematou:

- Antes de completar o serviço a Companhia Telefônica gostaria de oferecer um chip grátis com mil minutos caso a cliente não cancele a linha. Não? Como este telefone é muito antigo também temos 15 mega de internet disponível a preço especial. Não? Que tal então um serviço siga-me inteiramente grátis?

As pipocas e o vinho haviam terminado, e antes que a paciência terminasse também, interrompi a pobre senhorita.

- Minha filha, por favor preste atenção. Minha mãe sempre foi muito caridosa e certamente não precisará de chip, nem de internet onde está. Mas se ela fosse para o inferno eu faria questão que toda a sua companhia a seguissem imediatamente. Agora, por favor, dá para desligar essa linha!

 

Publicado no Jornal Nova Folha de Guaíba em 26/7/2013

O Mouro

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Faz tanto tempo que ouvi essa conversa, que o passar dos anos, tenho certeza, se encarregou de mudá-la um pouco, como soi acontecer com nossas lembranças. Minhas retinas de criança ainda trazem gravadas a figura do velho gaudério com dorso curvado sobre a montaria, no trote compassado de quem o tempo desistiu de apressar. Havia muitas histórias que contavam sobre ele. Raimundo, não lembro com certeza,  era o nome do gaúcho solitário e idolatrado por todas as crianças de cabecinhas brancas e olhos azuis da pequena colônia alemã do interior do Rio Grande do Sul.

Ninguém sabia se tinha família, mulher, filhos ou parentes. Nunca recebia visitas. Apenas desaparecia de tempos em tempos para onde ninguém sabia e reaparecia com a mesma discrição com que se fora. Sempre reservado, sua presença na vila apenas era notada quando passava com seu cavalo rumo ao armazém ou pela fumaça farta e branca expelida pela chaminé da sua cabana. Os garotos maiores se vangloriavam de já terem subido até lá no alto onde, de frente para o vale, o moquiço do gaúcho se agarrava, obstinado, aos rochedos do morro.

Nas raras ocasiões em que o gaúcho descia ao vale, a curiosidade atraía os meninos que se alvoroçavam em curiosidade ao derredor do seu cavalo, que sereno mascava o freio na sombra do cinamomo em frente ao armazém. Ficávamos encantados com os pelegos, a sela de couro desenhado, o relho, o cantil e tantas outras coisas que inebriados, enquanto observávamos cada detalhe da montaria, nem percebíamos que o homem voltava. Ele nos punha a correr aos gritos de "raspa fora vaiscops" e emendava uma larga e sonora gargalhada. Fugíamos entre um misto de temor e alegria provocado pela voz de trovão do velho gaúcho.

Ele punha sua mala de garupa sobre a montaria e rumava para casa abastecido com o que viera buscar. Fumo, farinha, erva-mate, sal e algumas outras poucas coisas que um homem necessitava naqueles tempos. Sempre só, carregava um ar sereno de quem está em paz consigo. Naquele tempo, em conversa de adulto nenhum moleque metia o bedelho, mas recordo de certa vez vê-lo conversando com um grupo de homens no armazém e um dos presentes o arguiu se ele, assim tão solitário, não tinha medo de ser atacado ou assaltado por malfeitores que volta e meia andavam fazendo estripulias lá por aquelas bandas. Vi-o sorver o copo do martelinho num gole só e responder:

"Pois olha que manejo bem o meu três listras e não me assusto com burburinho. Mas se a coisa fica feia, tenho fé no meu São Niquelado que me protege e defunteia o vivente que se meter a abobalhado."

Não sei se a pobreza da rima se deve ao pouco saber do "poeta" ou ao tempo que esfomeado, comeu alguns trechos dos seus versos que estavam tantos anos perdidos pelos recantos da minha memória.

Publicado no Jornal Nova Folha de Guaíba em 19 de setembro de 2013.

Liberdade, liberdade

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Quem estava em idade escolar lá pelas décadas de sessenta e setenta, desenvolveu uma malquerença que se transformava numa espécie de coceira quando se falava em sete de setembro. A sanha ufanista daquela época, fazia todo mundo desfilar ou, como se dizia naqueles tempos, "marchar", para demonstrar nosso patriotismo. Não importava se o sujeito quisesse ou não, tinha que ir e pronto! Era o tempo do "pra frente Brasil" e o lema da nação era Brasil, ame ou deixe-o. Alguns foram embora na marra, outros porque quiseram. Houve aqueles que voltaram por cima, outros ficaram. Por aqui tudo foi se acomodando, com o nosso tradicional jeitinho. Saímos do inocente patriotismo até chegarmos ao ponto em que estamos hoje, este preocupante "tanto faz" que vivenciamos na atualidade.

O "tanto faz desde que eu tenha o que quero", é a nova ordem mundial. Justo quando pensávamos que o mundo melhoraria e que estaríamos caminhando ao encontro de uma nova consciência mundial de fraternidade, solidariedade e igualdade, tomamos o rumo contrário. Hoje caminhamos muito mais rapidamente ao encontro das cidadelas protegidas por fossas e tomadas por crendices obscurantistas típicas na idade média, do que ao encontro dos ideais libertários iniciados no século XVII por pensadores como Spinoza, John Locke, Isaac Newton e fortalecidos no século XVIII por Diderot, d’Alembert, Voltaire, Montesquieu tantos outros.

O tanto faz ou whatever, como dizem os ingleses, está nos levando diretamente a uma espécie de idade das trevas hi-tech. Temos altíssimas tecnologias que ao invés de fomentar o conhecimento estão substituindo a inteligência humana pela lógica da automação. Em resumo, estão nos emburrecendo rapidamente e nós, preocupados apenas em comprar e acumular riquezas ao redor dos nossos cheirosos umbigos, não nos damos conta disso.

Comemoramos em setembro a nossa libertação da coroa portuguesa, mas passados 191 anos, jamais alcançamos a liberdade. Para bem da verdade, nunca estivemos tão longe dela e tão presos e atrelados aos estrangeiros como agora.

No mundo todo lutou-se tanto pela liberdade e agora, depois de séculos de demandas deu nisso. De Pequim a Nova Iorque, de Maputo a Paris, passando por Guaíba, Bezerros e São Paulo, todos estamos no mesmo barco, parvos e submissos. Talvez nossa única salvação, seria os Cavaleiros Farroupilhas, como Dom Quixote, passarem a atacar shopping centers, esses gigantes templos da nova e absoluta religião mundial.

 

Publicado no Jornal Nova Folha de Guaíba em 06 de setembro de 2013

Os meus direitos

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Quero os meus direitos!  Talvez seja esta a expressão mais utilizada por todos nós brasileiros. Não sei dizer se em outros países é assim também, mas reconheço, e tenho esse direito, que ela me assusta. Todos temos direitos em profusão. Existem direitos de todas as formas e espécies. Direitos para grandes e pequenos. Ricos e pobres. Homens e mulheres, adultos, crianças, cães e gatos. Direitos das onças pintadas e das sem pintas. Confesso-me por vezes temeroso: será que temos direito a ter tantos direitos?

Sempre entendi o ato de ter direito a algo, associado a fazer por merecer, embora reconheça que esse processo faça parte da formação judaico-cristã que nos diz que o simples fato de nascer em berço cristão nos torna merecedores de direitos divinos sobre os diferentes.

Deixando as questões filosóficas e religiosas de lado, é com o exagero de direitos em detrimento da quase total inexistência de deveres que me preocupo. Cito, apenas como exemplo, a relação do funcionalismo público com o trabalho. A figura da estabilidade no emprego, praticamente desobriga o funcionário a cumprir aquilo para o qual foi contratado. Ele tem uma enorme lista de direitos e relativamente poucas ou nenhuma obrigação. Graças a Deus que ainda existe um grande número de funcionários públicos que exercem a atividade para a qual foram contratados com maestria e dedicação. O fazem porque querem, pois dificilmente poderiam ser obrigados a cumprir seus deveres com a legislação existente.

Por outro lado, surge uma nova classe brasileira que não tem direitos, mas apenas obrigações. Trabalhadores informais, por magia das leis, foram transformados em empresários. Vendedores ambulantes, comerciantes, lojistas e pequenas empresas familiares surgem a cada dia aos milhares por esse Brasil afora. Muitos deles, apesar das agruras da legislação brasileira, conseguem sucesso e apesar de tudo melhoram de vida. Mas eles vivem em outro país. No Brasil dos pequenos empresários, empresários individuais e das pequenas empresas familiares, não existem direitos. Existem obrigações. E a principal delas é gerar renda para pagar, pontualmente, os impostos que sustentam o outro Brasil. O Brasil dos direitos. O Brasil dos bons e garantidos salários no fim do mês, não interessando se produziu ou não. O Brasil dos treze e até quatorze meses por ano. O Brasil onde não precisa trabalhar mais, basta apresentar um diploma, muitas vezes fajuto, para o salário aumentar consideravelmente. O Brasil dos direitos poderia, ao menos de vez em quando, ter a humildade de reconhecer que é sustentado pelo Brasil dos deveres e oferecer um pouco do trabalho para o qual foi contratado, em troca do que recebe. E não são vinte centavos.

 

Publicado no Jornal Nova folha em 30 de agosto de 2013.

Serão ataques ou pedidos de socorro? (1)

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Sei que seria mais agradável esquecer esse assunto da escola La Hire Guerra, em Sans Souci. Deixei passar duas semanas para escrever sobre o tema, pois não me agrada falar das coisas no calor da emoção. Atos de vandalismo contra bens públicos como semáforos, luminárias, bancos de praça estão ficando frequentes em nossa sociedade e ultimamente as escolas também tornaram-se alvos. Na noite de 11 de junho a Escola Jose´ Carlos Ferreira, no bairro Pedras Brancas também já havia sido atacada. As escolas estão entrando para o rol de alvos, não apenas por ficarem desprotegidas nos finais de semana, mas principalmente pelo que representam para os agressores. A escola para eles, simboliza uma sociedade que quer transformá-los em algo que não são e não querem se tornar.

O antagônico dessas atitudes é que elas ocorrem justamente numa época em que a escola está sendo extremamente permissiva, a ponto de ser quase submissa, aos desejos e vontades de alunos e por que não dizer, de pais que os querem ver formados a qualquer custo, não importando se adquiriram algum conhecimento ou não.

Vivemos numa época de grande valorização dos meios materiais e não é raro encontrarmos pais que se veem obrigados a deixar os filhos nas escolas e creches pelas manhãs e somente os reveem altas horas da noite quando já dormem. A vida é dura e talvez por necessidade ou para ganharem um pouco mais e pagar a prestação da casa nova e do automóvel com IPI reduzido, assumimos novas prioridades. Não sei se há algo que possa ser feito para amenizar essa situação, mas se ficar como está, temo que chegará o dia em que estarão botando fogo em professores no recreio.

Lenine já cantava que o mundo está muito doente. Se os adultos já não têm mais muita certeza em quem acreditar, imaginem o que pode estar se passando nas cabeças das crianças. Numa revista de circulação nacional desta semana pode-se constatar acusações de que, possivelmente, haja um embuste entre os juízes que atuaram no episódio conhecido como mensalão e que a história pode não ser bem assim como nos contaram. Não sabemos mais em quem acreditar. Todos estamos doentes e não é à toa que vemos jovens organizando-se em milícias para assaltar lojas e quebrar tudo que encontram pela frente. Nosso mundo enfrenta uma grave crise de moralidade, de ética e mais do que nunca precisamos reavaliar os valores que atribuímos àquilo que prezamos. Botar fogo numa escola é um ato de extremo vandalismo, mas assim como muitos criminosos, propositadamente ou inconscientemente, deixam pistas para serem descobertos, também pode ser um pedido de socorro.

Publicado no Jornal Nova folha de Guaíba em 23 de agosto de 2013.

Sobre pais, filhos e a grama no quintal

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Contam que há monges capazes de ver o lento desabrochar de um botão de rosa ou o crescer da relva enquanto meditam. Isso é inimaginável para nós ocidentais, acostumados a uma enxurrada de estímulos e informações no dia a dia, no computador ou na televisão. Somente alto-falantes e grandes estrondos nos chamam a atenção. Não percebemos pequenos detalhes nem debaixo de nossos "sensíveis" narizes, como por exemplo, o crescer de nossos próprios filhos. Pois eles são espelhos. Não como os tradicionais que refletem o que imaginamos ser nossa imagem, mas sim, espelhos que refletem o que fizemos de nós e de quem nos acompanha nessa curta jornada sobre a terra. Cada filho reflete algo diferente do mesmo mundo. A arte da vida, consiste em aprender a olhar cada um a seu modo.

Neste domingo em que comemoramos o dia dos pais, ditam as regras que filhos presenteiem-nos. E tome gravata, porta clipes, perfumes de jabuticaba, garrafinhas de licor com retratinhos e por aí vai. Filhos tentam seguir os exemplos dos pais e todos perdemos tempo precioso querendo controlar tudo que está ao nosso alcance. Traçamos planos e metas de carreira, planos de negócios, e nem os filhos escapam das tentativas, muitas vezes bem sucedidas, de manipulação.

Mas, Montaigne nos lembra que "A vida é aquilo que acontece enquanto temos outros planos." Vivemos uma grande ilusão. O mundo, como os mágicos, nos faz ver somente aquilo que alguns querem que vejamos. Corremos atrás do progresso, de bens de consumo e dinheiro e a vida vai passando. Tentamos melhorar sempre, queremos casas melhores, carros melhores e envolvemos nossos filhos nessa correria insana e a vida vai acontecendo e nem percebemos que estamos perdendo a melhor parte.

Se não quisermos, um dia, depararmos com um estranho ou uma estranha dentro de casa nos chamando de pai, precisamos parar um pouco, com os pequenos no colo e sentir o pulsar de seus corações. Sua respiração suave. Eles estão crescendo. Só não vemos que crescem porque não temos paciência para ficar vendo. Precisamos fazer coisas importantes. Sempre temos coisas mais importantes para fazer. Imaginamos que estamos preparando-lhes um futuro brilhante, mas só lhes negamos o presente e os condenamos a repetir os nossos próprios erros.

A missão de um pai, mesmo em momentos difíceis em que não haja nada para compartilhar, é encontrar nesse nada a essência do universo. O nada, a inexistência, o vazio absoluto só pode ser preenchido com a centelha universal da vida, o amor.  Lembro uma cena do romance Antes de nascer o mundo, de Mia Couto em que um pai, Silvestre Vitalício, está sentado pensativo, olhando para o infinito e diz para seu filho: - "Venha, meu filho, venha me ajudar a ficar calado".

E depois de algum tempo, inspirou fundo e completou: - "Este é o silêncio mais bonito que já escutei, lhe agradeço Mwanito."

Desejo a todos os pais que possam aproveitar o domingo para não fazer nada com seus filhos, ouvir alguns silêncios e quem sabe, poder ver, por alguns minutos, como crescem lentamente.

 

Publicado no Jornal Nova Folha em 9 de agosto de 2013

Xinelagens

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Inicio grafando chinelagens de forma errônea para lavrar o meu protesto contra a OCIP - Onda de Chinelagem que Infesta o País. Movimento que, aliás, deixa no chinelo o Febeapá, o Festival de Besteiras que Assola o País, de Stanilsaw Ponte Preta, personagem de Sérgio Porto na década de sessenta.
Já faz algum tempo que, por total inconformidade com a baixaria, abandonei a televisão. Nem entrarei aqui a discorrer sobre a qualidade dos programas televisivos de notória baixa qualidade que bombardeiam as pobres mentes brasileiras, ávidas por um pouco de lazer gratuito. Gratuito é modo de dizer, pois cada segundo de publicidade transmitida nos canais de televisão é regiamente pago pelos bolsos dos consumidores ao comprar os produtos anunciados.
Também não entrarei aqui a discorrer sobre chinelagens nas redes sociais, principalmente no tal Feicebuque do qual todos reclamam, mas não deixam de bisbilhotar, regularmente, todos os dias.
Quero falar de um sujeito que já idolatrei nos idos tempos da TV Cultura quando ele, Marcelo Tass, desempenhava o intrépido repórter Ernesto Varela, proporcionando um dos pontos culminantes da produção televisiva brasileira. Foi antológica a abordagem que ele fez a Paulo Maluf quando lhe perguntou: “É verdade que o senhor é corrupto?” Maluf constrangido virou as costas e abandonou a entrevista. Bons tempos. Duros tempos. Hoje ele nos disponibiliza um festival de chinelagens, travestido de humor, através de seu programa CQC, da TV Bandeirantes. Seus repórteres sugam e ressugam até o bagaço do filão, já pobre e batido, de alguns políticos ridículos, num modelo de programa que, longe de fortalecer a cultura democrática, apenas ridiculariza o único meio de acesso ao poder do povo como eleitor, ou seja o legislativo. Talvez ele, o intrépido repórter, agora prefira um país governado por um grotesco e tirano ditador do que por um congresso representativo no qual haja, como em qualquer parte do mundo, uma minoria de ridículos políticos.
Mas a OCIP não se restringe à televisão ou às redes sociais. Os corruptos, outrora milionários, agoram topam qualquer ninharia. Nem para roubar são criativos. Nossa cidade está farta de ladrõezinhos sem a menor criatividade. Outro dia vi uma notícia que me fez pensar “enfim, sinal de inteligência e bom gosto”. Em Santa Catarina quatro ladrões assaltaram um caminhão carregado com camarão. Não pude evitar a minha decepção ao ler os detalhes da notícia. Mas qual, bom gosto, nada! Os idiotas deixaram de preparar centenas de receitas deliciosas com a carga e fugiram com o relógio e o celular do motorista. A Onda de Chinelagens que Infesta o País segue firme.

 

Publicado no jornal Nova Folha de Guaíba em 10 de maio de 2013

Mostrar as tetas

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Para as gerações de hoje, o filme Depois de Maio não deve dizer muita coisa, mas mexe, intimamente, com quem tinha dezoito ou vinte anos na década de setenta. Ver na tela do diretor Olivier Assaiyas, as angústias e anseios que vivíamos naquela época torna-se uma experiência mágica e, ao mesmo tempo, frustrante. Podemos traçar agradáveis lembranças de como era boa a sensação de descobrir a vontade e o poder de mudar o mundo. Inevitável, porém, é o sentimento de frustração ao compararmos aqueles anos com os tempos atuais. No filme, os jovens de 40 anos atrás discutiam nas salas de aula, nos bares e nos cafés de Paris, filósofos de Platão a Sartre, passando por Marx, Engels e tantos outros. Nos bares do Bom Fim, da Cidade Baixa, do Julinho, em Novo Hamburgo ou da Rua Grande, em São Leopoldo não era diferente. Foi a revolução dos livros. Lia-se nos parques, nos ônibus, em qualquer lugar que se tivesse um minutinho vago. Aquela geração queria mudar o mundo para buscar liberdade e igualdade sexual, direitos para os trabalhadores e o fim da exploração do homem pelo homem.
Lembro uma tarde ensolarada no final da década de setenta em que eu aguardava a lotação Canal 10, na Borges de Medeiros, enquanto um grande grupo de mulheres empunhando cartazes, faixas e megafones reuniam-se na esquina democrática. Duas mulheres conversavam, na fila atrás de mim, e não pude evitar ouvir quando uma perguntou “o que querem essas mulheres?” E sua interlocutora respondeu: “Ora, mostrar as tetas”. Pois foi mais ou menos isso que aconteceu com toda aquela geração. Queriam mudar o mundo e a vida de pessoas, mas sempre há aqueles que não querem mudar. Mulheres lutavam pelos direitos de mulheres que além de não participarem ainda as ridicularizavam e jovens lutavam pela liberdade de homens que não queriam ser livres.
Mas apesar de tudo, o mundo nunca mais foi o mesmo depois daquela década. Tudo serenou e as novas gerações não continuaram as buscas por melhorias de projetos coletivos. Como já ensinava o velho Freud, crescemos através da dor e do conflito. Hoje em dia, tudo está em paz e os sonhos que povoam as mentes dos nossos jovens, pelo menos a grande maioria, não incluem ninguém além deles próprios. Filosofia virou matéria chata. Vemos poucos livros e muitos fones de ouvido nos quais, ensimesmados, provavelmente ouvem os Lek, Lek da vida, o que, de certo modo, não deixa de ser uma filosofia.
Quanto ao filme, trata do direito de escolha, e de, por que não, também pensar em si próprio e seguir seu coração. Não é necessário ir ao inferno para não estar no céu. Quanto aos tempos atuais, vivemos numa época em que as causas coletivas foram radicalmente substituídas pelo egoísmo e pela imensa ilusão de que é possível ser feliz sozinho.

 

Publicado no Jornal Nova Folha de Guaíba em 17 de maio de 2013

Minha tribo e o paraíso

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Um final de tarde escuro e chuvoso de domingo serve, muito bem, para algumas reflexões a respeito da nossa doce vidinha urbana e pequeno burguesa. O outono, aqui em nosso recanto espraiado entre a Lagoa dos Patos e o início da serra do mar, costuma ser rigoroso e nos dias frios e úmidos anoitece mais cedo, provocando grandes quedas na temperatura.
Pois numa tarde-noite gelada dessas deparei-me com um problema de grandes proporções. Abateu-me subitamente uma fome enorme e a gravidade da minha situação somente revelou-se por completo, depois da constatação de uma total inexistência de algo comestível que me agradasse, em toda minha casa. Pois afirmo, caro leitor, que este não foi o meu problema maior. Tive a reação lógica e imediata que qualquer ser urbano teria. Munido de meu cartão de crédito, que é o equivalente ao arco e flecha das tribos de antigamente, fui à caça de comida.
Graças ao progresso da ciência, e aos deuses da indústria e da informática, não precisamos mais disputar nosso alimento com nenhum jaguar esfomeado, nem nos é necessário plantar hoje a batata que assaremos amanhã. Foi aí que deparei com um problema bastante comum em nossa cidade. Como era uma tarde de domingo, praticamente todos os estabelecimentos comerciais do ramo alimentar estavam fechados.
Passei a rodar com meu automóvel pelas ruas e bairros à procura de algum estabelecimento que vendesse comida, da boa, de preferência. Finalmente encontrei uma pequena mercearia. Um pouco escura e mal iluminada mas, tendo comida estou salvo, pensei. Fui diretamente ao balcão de frios, mas tive que bater em retirada, pois, honestamente, fiquei com medo de ser atacado pelo presunto que já ostentava algo parecido com barba penuginosa. Aproveitei que não havia ninguém observando e saí à francesa.
A esta altura da minha fome, voltei às ruas na frenética busca por comida, mas, como normalmente acontece, quanto mais se procura por algo, mais difícil torna-se encontrá-lo. Depois de muitas voltas e revoltas por quarteirões e mais quarteirões, quando eu já estava decidindo entre ir a Porto Alegre ou voltar para casa e trocar meu cartão de crédito por um arco e flecha, finalmente tive uma visão maravilhosa. O iluminado supermercado apareceu na minha frente e orgulhosamente ostentava uma faixa enorme: “Aberto domingos até às 18 horas”. Meu relógio marcava dezessete e trinta e me habilitava a desfrutar do paraíso por trinta minutos.
Em pouco tempo carreguei um carrinho com dezenas de produtos comestíveis que dariam para alimentar um elefante. Rumei para o caixa e de lá para o automóvel. Chovia a cântaros e cacei tudo sem a necessidade de molhar os pés. O paraíso é aqui mesmo, inclusive aos domingos e feriados e eu não sabia.

 

Publicado no jornal Nova Folha de guaíba em 24 de maio de 2013

John Coltrane e o cachorro do vizinho

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O almoço de domingo, aqui nos pampas, assume ares quase religiosos face aos nossos hábitos e costumes gaúchos. A churrasqueira sob a sombra amiga e protetora da figueira, torna-se o altar de um ritual de paz e tranquilidade, devidamente adequado para mandar o desgaste de uma semana de atividades intensas para o espaço.
Um desses últimos domingos amanheceu claro, ensolarado, com temperatura amena, pouco vento e tudo indicava um domingo estupendo. A manhã transcorreu rápida consumida pela logística dos preparativos para o churrasco planejado.
Depois da churrasqueira preparada os CDs prediletos foram para o quiosque sob a figueira juntamente com os demais apetrechos indispensáveis ao churrasqueiro. A carne havia sido, gentialmente, preparada pelos especialistas do açougue do Rudimar, seguindo as instruções recebidas do amigo Tuchaua, da Biblioteca Nacional - que falou maravilhas sobre um corte paulista. Como bom descendente de alemães, prefiro a cerveja levemente resfriada um pouco abaixo da temperatura ambiente e ela estava no ponto. Dizem que temos esse costume desde a mamadeira. Sempre me senti meio Ulisses, na Odisséia ao fazer churrasco. Quem pensa que fomos nós, os gaúchos, que inventamos o churrasco certamente não deve lembrar que o herói de Homero já descrevia um churrasco “Picam-se as carnes que enroscadas assam em fogueiras...”
Foi justo neste momento que surgiu um personagem indesejável. O cachorro do vizinho iniciou uma absurda ladraria e não parecia nenhum pouco inclinado a parar. É inacreditável como um bichinho tão bonito pode tornar-se a criatura mais irritante do universo com seus latidos obstinados e incessáveis.
Meu churrasco estava a ponto de se tornar infernal e insuportável quando, por obra do acaso, foi salvo pelo bom gosto do meu vizinho ladrador.
O apertar acidental do “Play” do “CDplayer” fez jorrar o saxofone de John Coltrane sob a figueira. Ato contínuo, como por milagre o cão parou de latir. O silêncio do outro lado foi tanto que não me contive. Fui espiar por sobre o muro e lá estava ele. O enorme e negro cão sentado, de orelhas em pé, ouvia, atentamente, “I want to talk about you”. De duas uma: Ou ele estava querendo ter uma conversa sobre a nossa relação ou é um amante de jazz.
Enfim, reinou a paz entre os seres sob a sombra da figueira enquanto todos aproveitavam o churrasco, que ficou excelente, o clima maravilhoso, a cerveja no ponto. O ótimo CD triplo do John Coltrane da Trilogy Collection The Timeline Series garantiu a tranquilidade e supriu o nosso almoço de uma indispensável boa música. Vai ter bom gosto assim na casinha do cachorro do meu vizinho!

 

Publicado no jornal Nova Folha de Guaíba em 7 de junho de 2013

Linha ocupada

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No final dos anos setenta, os desdobramentos da juventude e tropeços do destino, me jogaram no corre-corre da agitação de Porto Alegre. Vindo do interior, semanalmente ou ao menos quando houvesse um tempinho disponível, procurava passar algumas horas no Mercado Público. Era lá que eu encontrava, em plena capital do estado, o que existia de mais próximo do mundo que deixei nas margens do arroio Boa Vista, lá no Alto Taquari. Era reconfortante, de tempos em tempos, aplacar a saudade com as minhas incursões pelos corredores do Mercado Público.
O cheiro da erva-mate nas tuias, as carnes, linguiças e feixes de chás pendurados, os queijos e aquela profusão de artigos eram todos reconhecidos não apenas pelos meus sentidos, mas pela minha alma. Não raras as vezes que do mercado atravessava a Mauá para olhar as águas do Guaíba e saber que um pouco dela também veio do rio Taquari que a recebeu do arroio Boa Vista, lá do ladinho da casa dos meus pais. Da escadaria na beira do rio sentia-me visitado pelas águas dos meus anos jovens.
Vivemos nossas vidas urbanas nas cidades, mas carregamos na alma toda a reminiscência do gaúcho do interior. Não importa se da Fronteira, da Serra, dos Vales do Paranhana ou do Taquari. Todos os nossos costumes, nossos hábitos, incluindo os ingredientes das receitas usadas pelas nossas mães e avós, estavam nas prateleiras do Mercado Público.
Quem passou a infância pescando nos arroios da vida no interior, aprendeu a dar o devido valor à vitória de conseguir pescar o peixe desejado na vitrine do balcão da banca da Japesca entre a multidão de pescadores urbanos na Semana Santa.
Engana-se quem pensa que meus natais eram anunciados pela chegada dos papais noéis e das canções de natal pelas ruas. O Natal anunciava-se de verdade com a chegada, lá de casa, da lista de itens para a ceia como bacalhau, frutas secas, cereais, conservas e demais produtos que eu deveria buscar na banca 26.
Quando passei a viver em Guaíba, cada ida a Porto Alegre incluía, no mínimo, uma parada para um café no Mercado. Não apenas pelo café, mas para um rápido banho na alma gaúcha.
Somos habitantes das grandes cidades e cada um, a seu modo, sofre com a falta do ar da serra, das florestas, do campo ou do pampa. Como mergulhadores vivemos oprimidos e angustiados pela falta de ar, mas de tempos em tempos podíamos subir à tona para respirar o ar puro da nossa infância pelos corredores do Mercado Público.
Agora, resta-nos aguardar e torcer para que o tempo passe logo e chegue o dia de novamente termos o nosso Mercado Público em funcionamento, para que possamos recarregar nossa alma com as coisas do Rio Grande que nos tornam o que somos de verdade.

 

Publicado no jornal Nova Folha de Guaíba em 14 de junho de 2013

Pausa para um café no mercado

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No final dos anos setenta, os desdobramentos da juventude e tropeços do destino, me jogaram no corre-corre da agitação de Porto Alegre. Vindo do interior, semanalmente ou ao menos quando houvesse um tempinho disponível, procurava passar algumas horas no Mercado Público. Era lá que eu encontrava, em plena capital do estado, o que existia de mais próximo do mundo que deixei nas margens do arroio Boa Vista, lá no Alto Taquari. Era reconfortante, de tempos em tempos, aplacar a saudade com as minhas incursões pelos corredores do Mercado Público.
O cheiro da erva-mate nas tuias, as carnes, linguiças e feixes de chás pendurados, os queijos e aquela profusão de artigos eram todos reconhecidos não apenas pelos meus sentidos, mas pela minha alma. Não raras as vezes que do mercado atravessava a Mauá para olhar as águas do Guaíba e saber que um pouco dela também veio do rio Taquari que a recebeu do arroio Boa Vista, lá do ladinho da casa dos meus pais. Da escadaria na beira do rio sentia-me visitado pelas águas dos meus anos jovens.
Vivemos nossas vidas urbanas nas cidades, mas carregamos na alma toda a reminiscência do gaúcho do interior. Não importa se da Fronteira, da Serra, dos Vales do Paranhana ou do Taquari. Todos os nossos costumes, nossos hábitos, incluindo os ingredientes das receitas usadas pelas nossas mães e avós, estavam nas prateleiras do Mercado Público.
Quem passou a infância pescando nos arroios da vida no interior, aprendeu a dar o devido valor à vitória de conseguir pescar o peixe desejado na vitrine do balcão da banca da Japesca entre a multidão de pescadores urbanos na Semana Santa.
Engana-se quem pensa que meus natais eram anunciados pela chegada dos papais noéis e das canções de natal pelas ruas. O Natal anunciava-se de verdade com a chegada, lá de casa, da lista de itens para a ceia como bacalhau, frutas secas, cereais, conservas e demais produtos que eu deveria buscar na banca 26.
Quando passei a viver em Guaíba, cada ida a Porto Alegre incluía, no mínimo, uma parada para um café no Mercado. Não apenas pelo café, mas para um rápido banho na alma gaúcha.
Somos habitantes das grandes cidades e cada um, a seu modo, sofre com a falta do ar da serra, das florestas, do campo ou do pampa. Como mergulhadores vivemos oprimidos e angustiados pela falta de ar, mas de tempos em tempos podíamos subir à tona para respirar o ar puro da nossa infância pelos corredores do Mercado Público.
Agora, resta-nos aguardar e torcer para que o tempo passe logo e chegue o dia de novamente termos o nosso Mercado Público em funcionamento, para que possamos recarregar nossa alma com as coisas do Rio Grande que nos tornam o que somos de verdade.

 

Publicado no jornal Nova Folha de Guaíba em 12 de julho de 2013

Neurônios falantes

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Não tenho muita paciência para ver televisão. Prefiro um bom livro ou alguma leitura interessante. Neste sentido a internet tem se mostrado uma ferramenta espetacular. Sempre tem alguém pensando ou fazendo alguma coisa fascinante neste mundão de Deus e tudo vai parar na internet. Ou melhor, ia. É claro que agora que descobriram que os americanos têm um centro com milhares de pessoas bisbilhotando a vida de todo mundo isso vai acabar. Mas até aqui, pelo menos, a internet era um canal de troca de ideias e experiências entre cientistas, escritores, poetas e tudo que é tipo de gênio, maluco ou retardado, o que no final das contas, da tudo no mesmo. Na internet, assim como nos livros, encontramos desde grandes besteiras até grandes informações e o que encontramos, só depende do que estamos procurando. Mas, fora o “feicebuque e o tuíter”, há muita coisa interessante na rede mundial dos www.
Outro dia estava lendo uma matéria em que alguns cientistas discutiam a possibilidade das nossas células nervosas se comunicarem entre si, não por reações eletroquímicas, mas por ondas sonoras. Ora, vejam só. Que maravilha. Nossos pensamentos podem ser resultado das conversas de alguns bilhões de neurônios tagarelas confabulando entre si. Trocando uma ideia, sabe?
Ainda bem que eles são discretos e falam baixinho. Aliás, os seres humanos bem que poderiam imitar seus próprios neurônios e falarem um pouco mais baixinho, pelo menos, nos restaurantes. Parece que a presença de comida deixa alguns convivas tão excitados que a barulheira de um simples almoço entre amigos chega próximo a um desfile de escola de samba. Lembra uma manada de búfalos sedentos correndo para a lagoa. Fico a imaginar o que aconteceria se além da balbúrdia dos humanos ainda tivéssemos que ouvir a gritaria de cada um de seus 86 bilhões de neurônios. Deve ser por isso que existem certos sujeitos meio patetas. Não por ter poucos neurônios, mas porque os seus Ticos e Tecos gritam tanto que eles não se entendem entre si.
Pensando bem, e bem baixinho, acho que seria insuportável se ouvíssemos tudo o que as células nervosas dos outros conversassem entre si. Entrar no elevador com alguém, por exemplo, seria o mesmo que entrar num pátio de escola com alguns bilhões de alunos na hora do recreio.
Desta forma podemos ficar aliviados pelo fato de nossos pensamentos se formarem em silêncio e não precisamos usar protetores de ouvidos para nos proteger dos pensamentos dos outros. Deixando as brincadeiras de lado, sempre é bom ver as coisas por um ângulo diferente. Se nossos pensamentos são resultado de reações químicas ou ondas sonoras em nosso cérebro, são conjecturas e teorias que só existem porque a raça humana tem esta capacidade.
Elaborar pensamentos de menor ou maior complexidade, só depende da nossa vontade e do nosso esforço para aprender.

Publicado no jornal Nova Folha de Guaíba em 19 de julho de 2013

Sobre pais e filhos e a grama no quintal

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Contam que há monges capazes de ver o lento desabrochar de um botão de rosa ou o crescer da relva enquanto meditam. Isso é inimaginável para nós ocidentais, acostumados a uma enxurrada de estímulos e informações no dia a dia, no computador ou na televisão. Somente alto-falantes e grandes estrondos nos chamam a atenção. Não percebemos pequenos detalhes nem debaixo de nossos “sensíveis” narizes, como por exemplo, o crescer de nossos próprios filhos. Pois eles são espelhos. Não como os tradicionais que refletem o que imaginamos ser nossa imagem, mas sim, espelhos que refletem o que fizemos de nós e de quem nos acompanha nessa curta jornada sobre a terra. Cada filho reflete algo diferente do mesmo mundo. A arte da vida, consiste em aprender a olhar cada um a seu modo.
Neste domingo em que comemoramos o dia dos pais, ditam as regras que filhos presenteiem-nos. E tome gravata, porta clipes, perfumes de jabuticaba, garrafinhas de licor com retratinhos e por aí vai. Filhos tentam seguir os exemplos dos pais e todos perdemos tempo precioso querendo controlar tudo que está ao nosso alcance. Traçamos planos e metas de carreira, planos de negócios, e nem os filhos escapam das tentativas, muitas vezes bem sucedidas, de manipulação.
Mas, Montaigne nos lembra que “A vida é aquilo que acontece enquanto temos outros planos.” Vivemos uma grande ilusão. O mundo, como os mágicos, nos faz ver somente aquilo que alguns querem que vejamos. Corremos atrás do progresso, de bens de consumo e dinheiro e a vida vai passando. Tentamos melhorar sempre, queremos casas melhores, carros melhores e envolvemos nossos filhos nessa correria insana e a vida vai acontecendo e nem percebemos que estamos perdendo a melhor parte.
Se não quisermos, um dia, depararmos com um estranho ou uma estranha dentro de casa nos chamando de pai, precisamos parar um pouco, com os pequenos no colo e sentir o pulsar de seus corações. Sua respiração suave. Eles estão crescendo. Só não vemos que crescem porque não temos paciência para ficar vendo. Precisamos fazer coisas importantes. Sempre temos coisas mais importantes para fazer. Imaginamos que estamos preparando-lhes um futuro brilhante, mas só lhes negamos o presente e os condenamos a repetir os nossos próprios erros.
A missão de um pai, mesmo em momentos difíceis em que não haja nada para compartilhar, é encontrar nesse nada a essência do universo. O nada, a inexistência, o vazio absoluto só pode ser preenchido com a centelha universal da vida, o amor. Lembro uma cena do romance Antes de nascer o mundo, de Mia Couto em que um pai, Silvestre Vitalício, está sentado pensativo, olhando para o infinito e diz para seu filho: - “Venha, meu filho, venha me ajudar a ficar calado”.
E depois de algum tempo, inspirou fundo e completou: - “Este é o silêncio mais bonito que já escutei, lhe agradeço Mwanito.”
Desejo a todos os pais que possam aproveitar o domingo para não fazer nada com seus filhos, ouvir alguns silêncios e quem sabe, poder ver, por alguns minutos, como crescem lentamente.

 

Publicada no jornal Nova Folha de Guaíba em 09/08/2013

Serão ataques ou pedidos de socorro?

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Sei que seria mais agradável esquecer esse assunto da escola La Hire Guerra, em Sans Souci. Deixei passar duas semanas para escrever sobre o tema, pois não me agrada falar das coisas no calor da emoção. Atos de vandalismo contra bens públicos como semáforos, luminárias, bancos de praça estão ficando frequentes em nossa sociedade e ultimamente as escolas também tornaram-se alvos. Na noite de 11 de junho a Escola José Carlos Ferreira, no bairro Pedras Brancas também já havia sido atacada. As escolas estão entrando para o rol de alvos, não apenas por ficarem desprotegidas nos finais de semana, mas principalmente pelo que representam para os agressores. A escola para eles, simboliza uma sociedade que quer transformá-los em algo que não são e não querem se tornar.
O antagônico dessas atitudes é que elas ocorrem justamente numa época em que a escola está sendo extremamente permissiva, a ponto de ser quase submissa, aos desejos e vontades de alunos e por que não dizer, de pais que os querem ver formados a qualquer custo, não importando se adquiriram algum conhecimento ou não.
Vivemos numa época de grande valorização dos meios materiais e não é raro encontrarmos pais que se veem obrigados a deixar os filhos nas escolas e creches pelas manhãs e somente os reveem altas horas da noite quando já dormem. A vida é dura e talvez por necessidade ou para ganharem um pouco mais e pagar a prestação da casa nova e do automóvel com IPI reduzido, assumimos novas prioridades. Não sei se há algo que possa ser feito para amenizar essa situação, mas se ficar como está, temo que chegará o dia em que estarão botando fogo em professores no recreio.
Lenine já cantava que o mundo está muito doente. Se os adultos já não têm mais muita certeza em quem acreditar, imaginem o que pode estar se passando nas cabeças das crianças. Numa revista de circulação nacional desta semana pode-se constatar acusações de que, possivelmente, haja um embuste entre os juízes que atuaram no episódio conhecido como mensalão e que a história pode não ser bem assim como nos contaram. Não sabemos mais em quem acreditar. Todos estamos doentes e não é à toa que vemos jovens organizando-se em milícias para assaltar lojas e quebrar tudo que encontram pela frente. Nosso mundo enfrenta uma grave crise de moralidade, de ética e mais do que nunca precisamos reavaliar os valores que atribuímos àquilo que prezamos. Botar fogo numa escola é um ato de extremo vandalismo, mas assim como muitos criminosos, propositadamente ou inconscientemente, deixam pistas para serem descobertos, também pode ser um pedido de socorro.

 

Publicada no jornal Nova Folha de Guaíba em 23/08/2013

Carta aos manifestantes de junho

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Publicada no jornal Nova Folha de 21 de junho de 2013

 

Manifestações tomaram as ruas do Brasil. Protestam contra os preços e a qualidade do transporte público, contra os investimentos para a Copa do Mundo de futebol, contra a baixa qualidade da educação, contra a corrupção.
O movimento cresce, mas com uma visível carência de objetivo principal, pois dentro dele existem vários grupos que protestam contra motivos diferentes. As manifestações estão sendo largamente exploradas com objetivos político-eleitorais pela grande imprensa que já está em campanha para 2014. São também, um recado para governantes de todas as esferas, para que façam algo além do que estão fazendo.

Lendo os artigos e depoimentos de participantes do movimento, é possível constatar que um elo comum entre todas as correntes de manifestantes é a luta contra a corrupção.
Sempre que vejo movimentos contra a corrupção tomarem as ruas, como já ocorreu na Grécia e na Espanha no ano passado, não consigo evitar a comparação com a figura de um cão que ataca a imagem de um inimigo refletida no espelho. Há muitos países e o nosso é um deles, que insistem em atacar a imagem refletida no espelho dos verdadeiros responsáveis pela corrupção. Queremos acabar com a corrupção sem punir os corruptores. Quem aceita suborno ou propina, nada mais é do que a imagem refletida no espelho de quem corrompe. Do corruptor. Este sempre permanece impune no Brasil.

Neste sentido, recomendo aos manifestantes e interessados no assunto, a olharem com um pouco de atenção para o projeto de lei que foi aprovado em abril por uma comissão especial da Câmara dos Deputados. É o projeto de Lei 6.826/10, batizado de Lei Anticorrupção, que define a responsabilização administrativa e civil de empresas que pratiquem atos contra a Administração Pública nacional ou estrangeira. O projeto de lei prevê a responsabilidade da pessoa jurídica, do grupo econômico e empresas coligadas e consorciadas, e ainda responsabiliza de forma individual os dirigentes ou administradores ou de qualquer pessoa natural, autora ou coautora que participe do ato ilícito.
O projeto anda devagar, quase parando, desde 2010, e ainda precisa ser votado pelo plenário do Senado.

É provável que se as manifestações assumissem o caráter de fazer essa lei avançar, estaríamos dando um passo importante para moralizar de forma definitiva nossas relações entre o capital e o poder.
Não basta gritar nas ruas, queimar automóveis, quebrar vitrines e como cães raivosos, atacar imagens refletidas pela imprensa. Para acabar de forma definitiva com a origem do problema da corrupção é preciso pressionar no lugar correto. O congresso não é um mal, como gostam de falar alguns saudosos da ditadura, é um precioso bem público que precisa ser adubado e cultivado com carinho, mas também podado com precisão e maestria.

Borges e eu

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borges e eu
Ao outro, a Borges, é que sucedem as coisas. Eu caminho por Buenos Aires e me demoro, talvez já mecanicamente, para olhar o arco de um vestíbulo e o portão gradeado;
de Borges tenho notícias pelo correio e vejo seu nome numa lista tríplice de professores ou num dicionário biográfico.
Agradam-me os relógios de areia, os mapas, a tipografia do século XVIII, as etimologias, o gosto do café e a prosa de Stevenson; o outro compartilha
essas preferências, mas de um modo vaidoso que as transforma em atributos
de um ator. Seria exagerado afirmar que nossa relação é hostil; eu vivo, eu
me deixo viver, para que Borges possa tramar sua literatura, e essa literatura
me justifica. 
Não me custa nada confessar que alcançou certas páginas válidas, mas essas
páginas não podem me salvar, talvez porque o bom já não seja de ninguém,
nem mesmo do outro, mas da linguagem ou da tradição. Além disso, estou
destinado a perder-me, definitivamente, e só um ou outro instante de mim
poderá sobreviver no outro. Pouco a pouco lhe vou cedendo tudo, embora
conheça seu perverso costume de falsear e magnificar.
Spinoza entendeu que todas as coisas querem perseverar em seu ser; a pedra eternamente quer ser pedra e o tigre um tigre. Eu permanecerei em Borges, não em mim (se é que sou alguém), mas me reconheço menos em seus livros do que em muitos outros, ou do que no laborioso rasqueado de uma guitarra. Há alguns anos tentei livrar-me dele e passei das mitologias do arrabalde aos jogos com o tempo e com o infinito, mas esses jogos agora são de Borges e terei de imaginar outras coisas. Assim minha vida é uma fuga e tudo eu perco e tudo é do esquecimento, ou do outro.
Não sei qual dos dois escreve esta página.
In
O Fazedor
Jorge Luis Borges
Tradução de Josely Vianna Baptista
Companhia das Letras
Borges