A arte de esquecer

A arte de esquecer

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Frequentemente nossa memória nos prega algumas peças que são difíceis de compreender. Esquecer um compromisso, deixar de realizar uma tarefa importante, não lembrar o nome de alguém conhecido, são transtornos que podem ser frutos da nossa distração ou também o resultado das escolhas feitas pela nossa própria mente. Selecionamos inconscientemente o que pretendemos guardar ou não, de acordo com o grau de importância que damos a um determinado fato ou acontecimento.

Iván Isquierdo, Argentino naturalizado brasileiro é uma das maiores autoridades mundiais em memória. Responsável pelo Laboratório da memória da PUCRS é autor de livros como Memória (Editora Artmed), Questões sobre memória (Editora Unisinos) e A arte de esquecer (Editora Vieira & Lent).

Ele nos ensina que nossa memória é um intrincado mecanismo de reter informações e que poderia não ser tão eficiente se não tivéssemos a capacidade do esquecimento. Nossas lembranças precisam ser constantemente oxigenadas e renovadas e esquecer faz parte de um processo de aprendizado.

Quando somos estimulados por cheiros, sabores, cores ou sons, determinadas lembranças  brotam, amiúde, em nossa mente, levando-nos a reviver momentos e situações já dadas por esquecidas.

Mas o mestre Izquierdo também nos chama a atenção para um fato aparentemente paradoxal de que o melhor da nossa memória não é a capacidade de lembrar todos os fatos da nossa vida, mas a capacidade de esquecimento que temos. Temos ilhas de lembranças aflorando, aqui e ali, num mar esquecido de acontecimentos que já vivenciamos em nossa vida.

Quando somos ofendidos ou atacados podemos escolher o que faremos com estas lembranças. Podemos mantê-las para sempre vivas como se ainda estivessem acontecendo, reprimi-las num canto qualquer da nossa memória ou podemos simplesmente esquecê-las. Tudo depende das nossas escolhas.

O esquecimento é um dom natural. Uma dádiva que pode ser tão comemorada quanto o fato de ter uma boa memória. Pode-se, literalmente, queimar a própria vida remoendo mágoas e arquitetando vinganças. Ou, ao contrário, abrir a mente para o perdão, esquecer o que nos incomoda e partir em frente.

Izquierdo provoca a nossa reflexão quando nos apresenta uma sentença desafiadora:

"somos aquilo que lembramos, mas também o que decidimos esquecer".

 

Publicado no Jornal Nova Folha de Guaíba em 24 de janeiro de 2014.