A luminária e os miguelitos

A luminária e os miguelitos

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Toda vez que passo pelo cruzamento da Av. Castelo Branco com a Av. Antenor Caldas, me chama atenção uma geringonça de ferro no gramado da rotatória. Provavelmente era a parte superior do poste de iluminação que deveria iluminar aquela área e que, por algum motivo, não está em seu devido e original local cumprindo o seu nobre papel.  

Não imagino como foi parar ali, no chão. Algum acidente, vendaval ou talvez tenha caído sozinha. Não se pode duvidar de nada. Alguém pode ter visto como aconteceu ou avisado a prefeitura, mas como nestes nossos dias malucos todo mundo anda na correria, ninguém lembra. Os passantes se acostumaram com aquilo lá e nem notam mais. Até a grama foi cortada metodicamente ao redor daquele traste.  

Outro dia, numa sexta-feira de greve, um daqueles “miguelitos (pra quem não sabe são pregos emendados com solda que malandros deixam nas ruas para furar os pneus e depois assaltar os motoristas) esquecidos” pelos grevistas, não entendeu que eu não era fura-greve e furou inadvertidamente o pneu do meu automóvel. Já repararam que as greves sempre acabam atingindo aqueles que não tem nada a ver com as demandas dos grevistas? Ora, pois, enquanto examinava a situação, aproveitei que um transeunte passava e tentei descobrir se ele sabia o que houve com aquela luminária. O homem olhou espantado e disse que apesar de morar nas proximidades, nunca tinha reparado que aquilo estava no chão.  

Eis que a humanidade acaba de descortinar a existência de mais um mistério. Cheguei a imaginar que no futuro nossa gloriosa luminária de Guaíba venha a ser estudada tal qual as pirâmides do Egito ou o triângulo das Bermudas. Um enigma.  

Como nosso pensamento voa, principalmente quando desprovido de uma explicação lógica. Fiquei imaginando o motivo pelo qual aquela cangalha continue daquele jeito, provavelmente há mais de ano.  

Quem sabe seja algum experimento científico, alguma experiência tecno-biológica e que daquela ferragem, feito semente, daqui a pouco não nasça um novo postezinho que irá crescer, crescer e feito  flor gigante, abrir novamente suas pétalas para iluminar a cidade. Vai que...  

Poderiam até, quem sabe, erguer ali um museu da luminária caída, com visitação pública, cobrança de ingresso e tudo. Do jeito que o mundo anda, bastará uma boa propaganda dizendo que aquela coisa veio do espaço e caiu de um disco voador. Eu não ficaria admirado em ver imensas filas esperando para ver de perto o fabuloso enigma da luminária espacial.  

Enquanto nada acontece, sigo tal qual os demais distraídos e apressados que passam por lá. Desde aquele dia, porém, contorno a rotatória lentamente tentando desviar de outros miguelitos que por desventura ou sacanagem estejam por lá esquecidos.