Ainda não somos símios

Ainda não somos símios

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Nestes úmidos dias de inverno, quase não resistimos a tentação de coaxar, enquanto rios em profusão escorrem pelas paredes transformando nossas casas em úmidas cavernas. Resta-nos o bálsamo de uma poltrona confortável perto da lareira, um cálice de um robusto vinho tinto e um bom livro para transformar o que parecia ruim, em momentos agradáveis e prazerosos.

Sendo franco, estou cá com meu peixe na mira, como diz o Galvani em seu “O Voo da Gaivota”, a rodopiar pelo papel imaginário desta página de tablet, em busca do momento certo para dar o bote e abocanhar meu peixe que é o assunto real que busco escrever nestas linhas.

Edward Znowden, aquele que vazou documentos secretos da Agência Nacional de Segurança Americana, disse no final do ano passado, em sua mensagem de Natal que o mundo está perdendo a noção de privacidade.

Muito já foi dito sobre as mudanças de hábitos a que estamos sendo submetidos, uma vez que a insegurança para sair à noite nos prende cada vez mais em nossas cavernas. Além dela, outro fator que faz com que muita gente deixe de frequentar certos ambientes, como cinemas e restaurantes, é a falta de educação dos demais frequentadores. Já tive que assistir a um filme com três ou quatro criaturas atrás de mim se matando de rir de algumas cenas que não tinham a menor graça. Trágicas, até. Faz anos que não assisto novelas, mas outro dia, num restaurante, fiquei sabendo tudo sobre uma nova novela da televisão que era narrada por uma criatura em altos brados, numa mesa nas imediações.

Definitivamente estamos perdendo a noção de privacidade, quando resolvemos falar aos gritos em locais públicos ou quando hordas de criaturas vociferantes invadem restaurantes como se estivessem no quintal de suas casas.  Sinal de tempos novos em que a educação, rara e fora de moda, cede lugar a novas atitudes de fazer o que se quer onde quer que se esteja e o resto que se dane. O mundo precisa encontrar uma forma de mostrar a essas criaturas que não somos bandos de símios saltitantes uivando na selva africana.

Bons tempos, aqueles em que se tiravam os chapéus nos restaurantes, ouviam-se uma suave música ambiente e alguns tímidos tilintares de talheres discretos.

Mas nem tudo, senhoras e senhores, amantes dos bons modos, está perdido. Descobri, em tempo, que ir cedo ao cinema e aos restaurantes, antes que a turba barulhenta chegue, nos permite tranquilidade e sossego. Assim quando estes estiverem indo, estaremos voltando para o sossego e aconchego dos nossos tranquilos lares.

 

Publicado no Jornal Nova Folha em 15 de agosto de 2014