Armas e flores

Armas e flores

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A julgar pelos sonhos que ando tendo, meu mundo interior está em crise. Tal qual “coxinhas” contra “petralhas” ou políticos contra defensores da “Lava Jato”, meu “Animal Interior” não se entende mais com meu “zen” e tranquilo “Unsui Interior”. Antigamente eles se respeitavam, eram cordiais e educados, dividiam meus sonhos de modo a não quebrar nada e deixar tudo mais ou menos intacto no meu status quo íntimo e não entravam em guerra por qualquer miçanga à toa.
Não sei se motivados pela crise política e social que vivemos, o fato é que os dois batem boca toda hora, partem para as “vias de fato” e meus sonhos viraram uma bagunça generalizada.
Noite dessas, o meu animal interior resolveu entrar na campanha Armas Pela Vida e passou a madrugada a distribuir pistolas de uso do Exército para as crianças nas escolas. Meu eu “zen” o seguia e convencia as crianças a trocar as armas por livros e as enterrava (as armas, não as crianças). Das covas nasciam belas flores que enfeitavam as escolas com imensos jardins coloridos. Ficou bonito, mas deu um trabalho danado. Acordei de madrugada, cansado de tanto trabalhar.
Nossos sonhos costumam acomodar nossas vivências. Devo ter sonhado com as tais armas motivado pela campanha “Armas pela vida” (Sério que agora armas não matam?) que vem ganhando a grande imprensa visando rechaçar o estatuto do desarmamento. A parte das flores no meu sonho deve ter surgido pela leitura do livro “Homens imprudentemente poéticos” do Valter Hugo Mãe.
A campanha, que pretende vender armas para a população, sustenta que todos têm direito a defesa. Claro que tem. Só insisto que essa função deve se manter do estado, pois de outra forma, daqui a pouco, todo mundo vai sair por aí resolvendo suas diferenças a tiro. Já bastam as balas perdidas de traficantes e policiais a ceifar vidas por todos os lados em qualquer hora do dia ou da noite.
Respeito quem pensa que a população armada ficará mais segura, até por que não ando armado desde que saí do Exército e não tenho a menor vocação para ser transformado em alvo por algum amante de armas mais fervoroso.
As flores na minha cabeça surgiram do personagem do Livro de Valter Hugo Mãe, o qual, motivado pela profecia de que sua mulher seria morta por um animal, uma fera ou monstro, resolve criar um imenso jardim ao redor da sua casa. Ele esperava que as flores, com suas cores e beleza, pudessem funcionar como uma escola que educasse as feras (animais ou homens?). O personagem explica acreditar “numa lição de ternura e respeito que ensinaria a todas as fomes a importância de respeitar a vida das pessoas.” Educar pela arte, pela beleza e pela cultura, sempre será mais eficiente do que colocar uma arma na mão do povo e mandar se virar por conta própria.
Eis que meu subconsciente resolveu a parada ao modo de Hugo Mãe. Todos temos nosso lado animal. Podemos dotá-lo de armas ou de flores. A escolha só depende de nós e do tipo de vida que queremos. A paz ou a guerra.