Camundongos de Kafka

Camundongos de Kafka

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Há escritores que quanto mais o tempo passa mais se tornam atuais. Um exemplo é o Austríaco franz Kafka (1883/1924). As palavras de Kafka, escritas nas primeiras duas décadas do século dezenove, não perdem sua atualidade. Um exemplo é a miniestória “Camundonguinho”, que faz parte do livro de contos e parábolas “oportunidade para um Pequeno Desespero”, publicado no Brasil pela editora Martins fontes.

“Quando o pequeno camundongo, que fora amado no mundo dos camundongos como nenhum outro, em uma madrugada caiu na ratoeira e com um alto berro deu sua vida pela visão de um toucinho, todos os camundongos das redondezas foram tomados por um tremor e uma agitação em suas tocas. Olharam-se uns aos outros em série, com os olhos piscando incontrolavelmente, enquanto a cauda esfregava o chão com um zelo inútil. Então saíram hesitantes, um empurrando o outro, todos atraídos para o local da morte. Ali jazia ele, o camundonguinho querido, o ferro na nuca, as perninhas cor-de-rosa encolhidas, paralisando o fraco corpo que teria sido tão bem agraciado com um pouco de toucinho. os pais estavam de pé ao lado e observavam os restos de seu filho”.

Não vou me por aqui a explicar a parábola, mas nosso mundo está repleto de toucinho e de pessoas dispostas a dar a vida por um.

Tudo em Kafka é breve. Conciso. haverá algo neste universo que seja mais efêmero do que a vida humana? o que representam os nossos parcos anos de vida frente aos mais de quatro bilhões de anos de existência do planeta terra? A vida humana e inteligente existe no planeta apenas nos últimos doze mil anos e sugere uma brevidade imensa.

Kafka, como ninguém, entendeu a brevidade. A urgência. A vida tem pressa, mas no mundo atual ocorre o oposto.  A sobrevivência da vida no planeta exige imensa urgência em aprender e entender, mas passamos a maior parte do nosso tempo envolvidos com futilidades sem a menor importância. Uma espécie de torpor anestesia criaturas em um mundo que funciona no automático. Indivíduos alheados relutam em adquirir consciência e entender a própria existência. Em bandos, seguimos instintos primitivos e vivemos em uma espécie de moto-contínuo. Nos surpreendemos com as mesmas surpresas, nos assustamos com os mesmos sustos.

Os camundongos de Kafka ensinam muito mais sobre humanos, costumes e tecnologia, do que sobre toucinho e ratos.