Contos de fadas e a sabedoria de Buda

Contos de fadas e a sabedoria de Buda

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Estava lendo um artigo sobre as mudanças ocorridas ao longo dos séculos nas histórias infantis. Horrendas e assustadoras, elas serviam para preparar as crianças para uma vida de adultos em que encontrariam privações, dificuldades e infortúnios. Com o passar dos anos, elas foram sendo adocicadas, enfeitadas, ficando fofinhas e bonitinhas como atualmente.

Mas será que a vida humana, hoje em dia, realmente está tão melhor, a ponto de não precisarmos mais preparar as crianças para possíveis dificuldades que encontrarão ao longo de sua existência?

Enfim, quem ousaria contar para uma criança, por exemplo, como era lá por 1600, uma das versões que podem ter originado a história da bela adormecida? Nela, uma bonita princesa caiu em sono profundo, após espetar o dedo em uma farpa. Ao ser encontrada por um príncipe que a achou muito linda, foi estuprada e gerou, mesmo sem acordar, aos gêmeos, Sol e Lua. Um deles ao não encontrar o seio da mãe, suga com força o seu dedo, extrai o veneno e ela desperta. O príncipe casado, descobre que a bela adormecida está acordada e retorna para vê-la. Sua mulher enciumada manda cozinhar os gêmeos e servi-los ao pulador de cerca e queimar a dorminhoca numa fogueira. O cozinheiro não obedece e serve cabritos, no lugar das crianças, ao príncipe que descobre a trama da esposa e chega a tempo de evitar que queimassem a princesa e joga a própria mulher ao fogo. Assim o príncipe, a princesa e seus gêmeos agora formam uma nova família e vivem felizes para sempre.

Pensando bem, nada muito diferente dos enredos das novelas de televisão atuais. Do século quinze para cá, muitas coisas mudaram, mas a luta por um lugar ao sol continua. A diferença é que a criança, para sobreviver, precisava tornar-se adulta rapidamente naquela época, enquanto que hoje, não é raro encontrarmos crianças com trinta anos de idade que ainda vivem seus contos de fadas.

A sociedade atual nos protege e procura banir todos os fatores geradores de infortúnio da vida das crianças e adultos. Até os infratores são protegidos do sofrimento por leis.

O mestre Zen Thich Nhat  Hanh em seu livro “A Essência dos Ensinamentos de Buda” (Editora Rocco, R$ 43,00), ao contrário dessa visão atual, que nos protege do sofrimento, diz que durante quarenta e cinco anos o Buda repetiu: “O meu ensinamento é sobre o sofrimento e sua transformação.” O sofrimento foi o meio que o Buda usou para libertar a si mesmo, e é também o meio pelo qual todos nós podemos nos libertar. “Sem sofrimento não crescemos. Sem sofrimento não podemos obter a paz e a alegria que merecemos.”

 

Publicada no jornal Nova Folha em 11 de julho de 2014