Desapegação

Desapegação

person

A moda é desapegar. A vida simples agora é chique. Todos querem simplificar.

Volta e meia a humanidade se dá conta que está passando dos limites e tenta frear o andar da carruagem. Parar o mundo e descer. Vivemos como uma imensa manada e tudo vira mania. Olhar para trás e ver a vida simples que já vivemos um dia, está se transformando em outra delas. Quase uma compulsão para muita gente. Tenho, porém, cá comigo, a impressão de que no afã de simplificar complicam mais ainda.

Sonham com a vida simples, desde que ninguém tenha que lutar pela própria sobrevivência. Plantar o próprio feijão, cultivar sua própria horta, nem criar suas próprias galinhas. Queremos vidinha simples, mas com ar-condicionado, TV, celular e geladeira cheia em qualquer época do ano.

Não creio que o mundo atual seja demasiado complicado. Eu diria que estamos vivendo uma overdose. Uma overdose de mundo. Um mundo onde todos estão conectados e gritam ao mesmo tempo o que lhes vem à cabeça em redes de computadores, ditas sociais. Estamos viciados nesta mania e não conseguimos mais desconectar. Desconectar, talvez, seja a palavra que procuramos, não desapegar ou simplificar.

O mundo está cada vez mais emaranhado e a leitura de microblogs, blogs e trocas de informações em redes universais tomam cada vez mais nosso tempo. Confesso, entretanto, que estou deveras impaciente com essas redes de fofocas. Fala-se e escreve-se muito e muito mal. Muita asneira. Não ando tendo paciência com quem quer pregar moralidade e salvar o mundo, mas não aprendeu sequer a escrever na nossa língua. Por isso fico com os livros. Leio o que me interessa e quem realmente tem algo a dizer.

A leitura tornou-se um hábito, para mim não só prazeroso, mas também profissional. Mesmo assim, não é raro ocorrer de não ler um livro até o fim. Quando isso ocorre, fecho o dito e o guardo na estante para, quem sabe um dia, voltar a ele. Enquanto isso ele ficará lá. Quietinho.

O problema da internet é que os chatos ficam o tempo todo cutucando, provocando, repetindo e testando nossos limites com suas asneiras. Concordo que todo mundo tem direito a uma opinião, por mais idiota que seja e cabe a seus interlocutores, dar-lhe ouvidos ou não. O problema é que eles ficam o tempo todo jogando seus "livros" na nossa cabeça.

O que o mundo está precisando não é desapegar, precisa desconectar e pegar um livro, ver um bom filme e ouvir uma boa música. Assim, finalmente poderemos ter a chance de recalibrar nossos sentidos com o que realmente interessa.

 

Publicado no Jornal Nova Folha edição 1247 de 02 de abil de 2015