Desnessessaire

Desnessessaire

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Dia desses viajava no catamarã e não pude evitar de observar que mesmo com uma vista maravilhosa no lado de fora das janelas, a maioria das pessoas fica no celular ou então olhando para aquelas telas anti-pensamento que ficam na parte da frente dos barcos. Não sei qual a necessidade de ter aqueles televisores nas embarcações, mas estão virando uma febre nacional, pois já estão nos ônibus, nos trens, em restaurantes e até nos aviões. O engraçado é que para os catamarãs contrataram um sujeito (às vezes é uma sujeita) que fica explicando onde fica o Beira-Rio, o morro da polícia e etecetera e tal, mas será que os turistas vão ficar olhando a paisagem ou o vale a pena ver de novo naquela tele-tela? Aposto uma unha encravada contra um fusca zero, que eles não viajariam milhares de quilômetros para verem televisão. Tenho a impressão de que uma das duas coisas é inútil.

Aliás, às vezes fico pensando em todas as coisas inúteis que ouvimos, falamos ou que, de alguma forma, fazem parte da nossa vida. A lista é interminável. Bem que poderíamos ter uma espécie de desnessessaire sempre a nossa disposição. Algo semelhante àquela bolsa do gato Félix, só que ao contrário, que com um simples abrir de zíper, servisse para que pudéssemos nos desfazer do desnecessário.

Eu começaria com aquela televisão. Abre o zíper e, tchau!

O que vocês me dizem sobre um discurso de meia hora no horário político gratuito sobre o projeto de um partido para incrementar a importância da pamonha na vida sexual das formigas cortadeiras? Já para a desnessessaire, com candidato, TV e tudo. Ou então numa amistosa pelada entre amigos, aparece aquele chato distribuindo pontapé, canelada e bico por todo lado feito o Edmundo, lembram do animal? Bastaria abrir o zíper e mandar o sujeito para a desnessessaire, sem nem passar pelo chuveiro.

Seria uma ferramenta realmente útil na nossa vida. Ela serviria inclusive para nos livrar daqueles chatos com seus conselhos incríveis sobre coisas que já estão prontas. Sabe aqueles que tem ideias brilhantes (só na cabeça deles) e sugerem mudanças infalíveis sobre coisas que eles não entendem absolutamente nada?

Mas a desnessessaire também teria uma grande importância para a nosa saúde mental. Quando algum motorista, desses que andam por ai hoje em dia, forçar e te ultrapassar pela direita, pelo acostamento, e fizer horrores e te deixar fulo, simplesmente abra a desnessessaire, jogue a raiva dentro, sorria e siga a vida.

Ela é muito curta para gastar com raiva.

 

Publicado no Jornal Nova Folha de 30 de maio de 2014