Femme Fatale

Femme Fatale

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Lourdes Regina, a Lurdinha para os de casa, cansou. Definitivamente ficou de mal. Subiu ao alto da cumeeira do celeiro e deixou o pobre pendurado, de ponta cabeça, na rosa de ventos logo abaixo do rabo do galo. Agora ele ia ver só com quem tinha se metido! E se dependesse dela, tão cedo ele não voltaria para o seu lugar na mesinha junto aos outros.

Não se brinca com o coração de uma mulher apaixonada. Ainda mais, como no caso dela, quando o amor em abundância transborda por todos os poros de seu corpo. Amor que transforma suas noites em um mar revolto de ondas sucessivas de calafrios que arrebentam nas areias brancas do seu torso e retornam ao mar profundo carregando suores e calores profanos, endereçados a quem ela ainda não faz a menor ideia de quem seja.

Ela sabe que toda essa paixão que lhe causa esse ardor intenso e arrebatador pertence a alguém. Só não sabe, ainda, quem é o seu príncipe encantado. O cavaleiro celestial em seu corcel alado que a tomará nos braços e a levará ao paraíso dos amantes, entre beijos ardentes e carícias extremas. Ela sabe que seu lugar no Éden do amor está garantido, pois sente que todo o pulsar do seu coração está destinado a este ser muito especial.

Ela detesta o dia dos namorados. Não suporta todas essas frangotas felizes carregadas de bombons e flores e arrastando seus namorados pelas ruas, pelos cinemas, pelos cafés e ela lá, transbordando de amor, sem encontrar ou sequer descobrir quem é aquele que por ela, obviamente, também espera exuberando   amor e paixão. Tudo culpa daquele unzinho que agora vai ficar lá, pendurado sob o rabo do galo que é pra aprender a não se meter a besta com ela.

Ultimamente ela fizera de tudo que sabia para encontrar o seu príncipe e tão sonhado amante das noites febris. Rezas e promessas e mais rezas, súplicas e todas as mandingas conhecidas e outras inventadas. E o que aquele traste fizera? Nada. Nadica de nada, mais nada ao quadrado, elevado ao cubo. Isso era uma desfaçatez, uma afronta. Logo com ela que sempre fora direita, que nunca faltava a missa, não dizia palavrão. Agora era guerra! Lurdes Regina cansara de ser boazinha e decidira ir a luta e seu primeiro ato de guerra acabara de ser tomado. Enquanto ela não descobrisse o fiel depositário da sua felicidade e do seu amor, ele ficaria cumprindo o seu castigo.

Quando se afastava do celeiro, ainda virou-se e sentenciou: “E se deixar cair o menino Jesus o problema é teu!”

A partir de agora tudo seria diferente. Vestiu sua leg mais justa, capturou uma selfie fazendo pose sensual no espelho ovalado do roupeiro do quarto dos pais e mudou seu perfil no Facebook para Lu. Fatal. Agora vai.

 

Publicado no Jornal Nova Folha em 06 de junho de 2014

 

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