Ignis fatuus

Ignis fatuus

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Lembranças da nossa infância costumam surgir de acordo com a época que estamos vivendo. Nestes dias de junho sempre me recordo de fogueiras. Muitas fogueiras eram acesas e espocavam por toda parte nos nossos jovens meses de junho. Nas escolas, nas igrejas, em empresas, enfim. Meia dúzia de amigos se reunia, arregaçavam as mangas a fazer uma fogueira de São João e logo estava pronta uma festança com quentão, pipoca, rapadura e alguma dança e cantoria, pois nunca faltava um violão perto de um foguinho. As pessoas mais habilidosas, com cola, tesoura e as finas varetas de bambu e papel de seda, dedicavam-se a confeccionar o balão que, no momento culminante da festa, era levado a iluminar o céu pelo calor do fogo de uma bucha de estopa embebida em óleo diesel.

A relação da raça humana com o fogo sempre foi muito intensa. Desde as cavernas o fogo nos aquecia e protegia nos momentos de frio e de perigo e também era o centro de todas as festas e comemorações. O fogo era uma espécie de pai para a humanidade, protetor e carinhoso, mas também severo e perigoso.

Em menos de cinquenta anos transformamos o lugar em que vivemos em uma metrópole, onde viver mudou de significado. Quem nunca se emocionou ao ver subir um balão colorido e brilhante numa fria noite de São João, nem saltou uma fogueira de mãos dadas e com o coração palpitando com a força de um sentimento desconhecido, que recém despertava, nunca terá a oportunidade de sentir a vida como ela já foi.

Daqui para frente, haverá cada vez menos espaço para a vida simples. Os balões foram extintos e as festas juninas, hoje raras, provavelmente seguem o mesmo caminho. Estamos nos transformando numa multidão. Fria, sem fogo e com medo. Muito medo. Não percebemos, pois as mudanças são sutis e paulatinas, mas o medo tornou-se a força mais transformadora do mundo contemporâneo. Por medo de incêndios abandonamos os balões e as fogueiras. Adotamos os shoppings por medo de assaltos e o toque de recolher, à noite, está se tornando uma rotina voluntária de todos.

Aos poucos, até o estado, que surgiu justamente para dotar a humanidade de lei e ordem, perde seu poder e torna-se instituição coletora de dados para estatísticas de fatos consumados.

Cercamos nossas casas e na clausura, cada vez mais solitários, sequer ousamos abrir as janelas. Preferimos olhar na fria tela pixelada de leds, a imagem de alguma praia ensolarada ou do crepitar imaginário de um singelo foguinho num filme antigo qualquer.

 

Publicado no Jornal Nova Folha em 20 de junho de 2014.