Meus fantasmas

Meus fantasmas

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A imagem do homem de preto entre a multidão, não sei por que, Carlitos talvez, raptou meu olhar quando eu descia a escadaria para os trens. Os cheiros de peixes e outros irreconhecíveis odores do mercado público ficaram para trás e na minha frente uma massa de gente, que ia por um lado, contrastava com outra que vinha em sentido contrário, como um rio de gente que corre em duas direções. Parei por um instante para observar o homem que se deixava levar, ora por uma corrente de pessoas por certa distância, ora cambaleava o corpo para outro lado e voltava com outra.

A sua sobriedade no olhar não denunciava uso de drogas, nem demência. Ele apenas seguia, como seguisse blocos carnavalescos de pierrôs e colombinas imaginários, as levas de seres que, cada um com seus próprios pensamentos, sequer tomavam conhecimento da sua presença. A cena lembrou-me barquinhos de papel navegando à deriva nos valos das águas de chuvas nas enchentes.

Deixei-me levar pelo povaréu que seguia ao meu redor. O homem se aproximou trazido pela turba que vinha em minha direção. Ninguém notava a sua presença e quase na minha frente ele, novamente como em transe, guinou o corpo, girou e seguiu em direção contrária a que vinha. Tive a nítida sensação de que ele também não via ninguém. Por um momento encontrei certa lógica nesse pensamento. Se a multidão absorta e apressada não o percebia, tampouco ele haveria de perceber a multidão. Ele apenas fazia um curto e perceptível trajeto de ida e volta, enquanto que a multidão percorria igualmente, quem sabe com qual lógica, trajetos outros.

Dei de ombros e continuei em frente, levado pela multidão que me cercava, sabendo que em pouco estaria voltando com outra leva de gente pelo lado de lá.

Ocorreu-me um trecho de uma crônica do Cyro dos Anjos e talvez para não sucumbir à letárgica turba, tive vontade de recitá-la em voz alta. Minha voz me soou estranha, "ando em estado de entrega. Entregar-se a gente as puras e melhores emoções, renunciar aos rumos da inteligência e viver simplesmente pela sensibilidade, parece-me a única estrada possível." O som da minha voz juntou-se às outras que gargalhavam ou falavam em telefones. "Onde houver claridade, converta-se em fraca luz de crepúsculo, para que as coisas se tornem indefinidas e possamos gerar nossos fantasmas. Seria uma fórmula para nos conciliarmos com o mundo".

Ninguém ouviu nem notou e segui meu caminho, tentando, como Cyro, encontrar os meus fantasmas e me conciliar com meu mundo.

A imagem do homem de preto entre a multidão, não sei por que, Carlitos talvez, raptou meu olhar quando eu descia a escadaria para os trens. Os cheiros de peixes e outros irreconhecíveis odores do mercado público ficaram para trás e na minha frente uma massa de gente, que ia por um lado, contrastava com outra que vinha em sentido contrário, como um rio de gente que corre em duas direções. Parei por um instante para observar o homem que se deixava levar, ora por uma corrente de pessoas por certa distância, ora cambaleava o corpo para outro lado e voltava com outra.

A sua sobriedade no olhar não denunciava uso de drogas, nem demência. Ele apenas seguia, como seguisse blocos carnavalescos de pierrôs e colombinas imaginários, as levas de seres que, cada um com seus próprios pensamentos, sequer tomavam conhecimento da sua presença. A cena lembrou-me barquinhos de papel navegando à deriva nos valos das águas de chuvas nas enchentes.

Deixei-me levar pelo povaréu que seguia ao meu redor. O homem se aproximou trazido pela turba que vinha em minha direção. Ninguém notava a sua presença e quase na minha frente ele, novamente como em transe, guinou o corpo, girou e seguiu em direção contrária a que vinha. Tive a nítida sensação de que ele também não via ninguém. Por um momento encontrei certa lógica nesse pensamento. Se a multidão absorta e apressada não o percebia, tampouco ele haveria de perceber a multidão. Ele apenas fazia um curto e perceptível trajeto de ida e volta, enquanto que a multidão percorria igualmente, quem sabe com qual lógica, trajetos outros.

Dei de ombros e continuei em frente, levado pela multidão que me cercava, sabendo que em pouco estaria voltando com outra leva de gente pelo lado de lá.

Ocorreu-me um trecho de uma crônica do Cyro dos Anjos e talvez para não sucumbir à letárgica turba, tive vontade de recitá-la em voz alta. Minha voz me soou estranha, “ando em estado de entrega. Entregar-se a gente as puras e melhores emoções, renunciar aos rumos da inteligência e viver simplesmente pela sensibilidade, parece-me a única estrada possível.” O som da minha voz juntou-se às outras que gargalhavam ou falavam em telefones. “Onde houver claridade, converta-se em fraca luz de crepúsculo, para que as coisas se tornem indefinidas e possamos gerar nossos fantasmas. Seria uma fórmula para nos conciliarmos com o mundo”.

Ninguém ouviu nem notou e segui meu caminho, tentando, como Cyro, encontrar os meus fantasmas e me conciliar com meu mundo.

 

Publicado no jornal Nova Folha em 04 de julho de 2014