Nosso barril está quase cheio

Nosso barril está quase cheio

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Estamos cercados por tantas coisas e objetos pessoais que se nos propuséssemos a fazer um inventário de tudo, a lista ficaria enorme e, seguramente, muitos itens ainda ficariam de fora. Da caixinha de clipes de papel ao espremedor de laranjas, passando por aquele alicate que só aparece, e nos lugares mais inusitados, quando não se precisa dele, o número de utensílios que compõem a nossa vida pode facilmente chegar à casa dos milhares.

Somos bem parecidos com aqueles pássaros que carregam objetos brilhantes para seus ninhos. Não resistimos a tentação de comprar algo novo e de preferência brilhante. Depois que inventaram os led’s então, tudo ficou mais brilhante na nossa vida. A TV, o telefone, o micro-ondas e até a máquina de lavar roupas agora vem com suas dezenas de luzinhas e ainda toca uma musiquinha quando termina uma tarefa. Tudo muito útil.

Aliás, acho que tem gente que viaja apenas para ter um subterfúgio para carregar mais algumas coisas para dentro de casa. Voltam com as malas abarrotadas de novos itens que substituirão antigos que serão devidamente remanejados e instalados em novos locais. Dificilmente  conseguimos resistir ao apelo de utilidades importantes como um berimbau da Bahia, um cocar do Mato Grosso ou uma nega na janela de Minas Gerais.

Mas também convenhamos, esse intenso comércio de coisas precisa existir para que as pessoas possam viver e se sustentar. Se de uma hora para outra todos resolvessem viver como o filósofo Grego Diógenes de Sinope que vivia num barril e tinha como bens apenas uma tigela, seu cajado e sua túnica, certamente 90% da população mundial teria que morrer de fome, virar faquir ou viver de luz.

Só não consigo imaginar em que ponto se dará a death line, o ponto culminante, o ápice em que o planeta se encontrará de tal maneira lotado de tralhas que teremos que começar a jogar coisas para fora. Aliás, aposto os pés de uma máquina de costura velha, atualmente servindo de aparador, que a verdadeira missão da sonda Americana Curiosity não é procurar se existiu vida em marte, mas sim, encontrar uma maneira de transformar aquele planeta em lixão espacial e, consequentemente, abrir espaço para mais quinquilharias aqui no nosso fofo e atulhado planetinha azul.

 

Publicado no jornal Nova Folha de 27 de junho de 2014