Pescador de automóveis

Pescador de automóveis

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Ouvi dizer de uma antiga lenda indígena que falava de almas da madrugada. Almas que ainda não partiram ao seu destino, durante a noite ficam vagando entre a floresta, baixinho, às vezes rente ao solo, entre plantas, flores e orvalho fresco. Diziam que flanavam entre as aldeias, esperando o momento de serem lançadas às suas novas vidas. Aproveitavam o frescor, o silêncio e apreciavam o aroma vital que brotava da natureza. E se recolhiam quando o sol mostrava o poder da luz sobre as trevas. Acreditavam os nativos que as almas se fossem assustadas, desatavam em louca correria, formando rios de vento que arrastavam muitas vezes plantações de mandioca, galhos e até aldeias inteiras.

As pessoas daquela tribo acordavam lentamente com a alvorada. Faziam ruídos mínimos, falavam baixinho para não assustar nem afugentar os espíritos da floresta. O alvorecer era um momento em que só a passarada cantava para acordar o dia que se espreguiçava entre o arvoredo.

Lembrei desta história outro dia em que me dirigia ao centro da cidade e deparei com aquele homem que, eventualmente, fica numa das rotatórias da Zona Sul com uma vara de pescar. Com uma vara joga sua linha como se pescasse num rio de automóveis. “O louco que tenta pescar automóveis,” me disseram no posto de combustíveis quando perguntei se sabiam quem era.

Dizem que os loucos, os visionários, veem o que nós, que nos consideramos “normais”, não conseguimos enxergar. Quem sabe ele não veja as almas penadas assustadas em sua fuga, com medo do nosso estúpido alarido e com a nossa falta de jeito com o que não conhecemos? Somos uma raça barulhenta e não respeitamos nada, muito menos hipotéticas almas da madrugada em busca de silêncio para não se assustar. Quem sabe se a lenda indígena não tenha uma boa porção de lógica. As pessoas das matas cuidavam para não assustar as almas, pois também acreditavam que estas, se assustadas, além dos vendavais que causavam, ao reencarnar se tornariam pessoas transtornadas e perturbadas.

Isso até explicaria um pouco esse mundo caótico, cada vez mais insano e de gente túrbida em que vivemos. Não respeitamos sequer os nossos próprios limites e necessidades, nem nos damos o direito de um amanhecer tranquilo. Acordamos atrasados e assustados partimos numa correria insana. Quem sabe se aquele homem com sua vara de pescar não esteja, de certa forma, nos mostrando que até a loucura, nos dias de hoje, seja mais sensata do que a nossa estúpida realidade.