Rubem Alves ainda tem algo a dizer

Rubem Alves ainda tem algo a dizer

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O escritor Rubem Alves faleceu no sábado, dia 19 de julho. Ele foi muito mais que escritor. Para muitos ele era um sábio, um filósofo que compartilhou textos, experiências e caminhos para sermos felizes e entendermos um pouco mais da vida.

Ele mesmo se dizia, além de educador e escritor, cronista, pedagogo, poeta, filósofo, contador de histórias, ensaísta, teólogo, acadêmico, autor de livros infantis e até psicanalista, de acordo com sua página na internet.

Fala-se atualmente na educação em tempo integral que será, sem dúvida, uma evolução necessária para os próximos anos. Evolução, certamente não em sentido de um ensino melhor, mas na direção de algo que está sendo exigido pelo mercado de uma sociedade voltada exclusivamente para a produção de bens e para o consumo. Num mundo de casais distantes de avós e familiares, os filhos menores no turno inverso ficam aos cuidados da vida. Esse problema era resolvido com empregadas, frequentemente informais, as quais agora com suas profissões regulamentadas, tornam-se caras e inacessíveis para a maioria da população.

Não nos iludamos, entretanto, pensando que o projeto de educação em turno integral visa melhorar a qualidade do ensino. Ela visa cuidar das crianças enquanto os pais trabalham e, se der, as crianças poderão aproveitar para tentar aprender alguma coisa.

Arrisco dizer que a escola, hoje em dia, é muito mais recreativa do que disciplinadora ou educadora. Crianças e jovens adultos têm poucas regras a seguir e ocorrem casos de verdadeiras inversões de papéis, quando, muitas vezes, até judicialmente o professor é que deve se submeter às vontades do aluno. Atingimos um perigoso ponto de realizar a mágica de uma escola feliz. Temo que as crianças de hoje, que fazem o que querem, acabem um dia tendo que ser educadas pela polícia.

No livro “Ostra Feliz Não Faz Pérola”, um dos muitos de Rubem Alves, ele nos diz que “Pessoas felizes não sentem necessidade de criar. O ato criador, seja na ciência ou na arte, surge sempre de uma dor. Não é preciso que seja uma dor doída. Por vezes, a dor aparece como aquela coceira que tem o nome de curiosidade.” Conseguimos em um só golpe, liquidar a disciplina e a curiosidade.

Tenho uma imensa curiosidade a respeito do tipo de profissionais que estamos formando. O mercado de trabalho está recebendo jovens sem um mínimo de domínio sobre operações matemáticas, poucos conhecimentos gerais, sem hábitos de leitura nem a menor polidez, sem compromissos com horários, nem empenho para realizar tarefas. Precisamos reler Rubem Alves.

 

Publicado no jornal Nova Folha em 25 de julho de 2014.