>A família que trocou a Finlândia pelo Brasil

A família que trocou a Finlândia pelo Brasil

50 ANOS DEPOIS

Há 50 anos, no dia 24 de abril de 1970, uma família de finlandeses chegava no porto de Santos, em São Paulo, tendo como destino Guaíba. O engenheiro Klas Dahlström havia recebido uma proposta de trabalho na norueguesa Borregard que estava sendo construída na cidade. O engenheiro chegou antes da mulher e filhos. Ele veio de avião e a esposa Iris e seus cinco filhos embarcaram semanas depois. A mãe veio com os filhos Yngve com 16 anos, Åsa com 13 anos, Bodil com 10 anos, Synnöve de seis anos e Tove de quatro anos, além do amigo das crianças, o cachorro Båtsman, um labrador preto.
“No dia 7 de abril embarcamos no Pasteur, um navio de passageiros francês que passava pelo Brasil; o destino final era Argentina. Essa viagem levou 17 dias, com várias paradas ao longo do caminho: Le Havre na França, Southampton na Inglaterra, Vigo na Espanha, Lisboa em Portugal. Lembro que passamos por Fernando de Noronha no dia 22 de abril e chegamos ao Rio de Janeiro, dia 23”, recorda Åsa.
Segundo ela, a troca de país não foi fácil. “Sem falar a língua portuguesa, a mãe passou momentos difíceis. Não havia ninguém esperando-os, pois chegaram antes do previsto”, complementou.
“Minha mãe nunca superou o trauma de não ter ninguém nos esperando no porto de Santos. Mesmo passados trinta anos, ela ainda falava indignada no assunto quando conversávamos ao telefone ou pessoalmente”, lembra a filha Åsa.
Em Guaíba, inicialmente a família hospedou-se no hotel Bavária, hoje conhecido como Hotel da Figueira. Em seguida optaram por morar em uma residência na Vila Elza.
“Meu irmão, eu, e minhas irmãs íamos à escola apenas para aprender português naquele primeiro ano (maio a novembro de 1970). Uma vizinha nossa era professora e nos emprestava livros; aprendi muito lendo “Reinações de Narizinho” e outros livros infantis”, lembra Åsa.
Morando nas margens do Lago Guaíba, as crianças muito brincavam na água. Morando em Campinas/SP, Synnöve levou boas recordações dos três anos que aqui viveu. “Eu e minhas irmãs descobrimos tantas maravilhas naqueles anos em que lá moramos. Tudo era novo, passamos quase um ano inteiro dentro do rio, mesmo no inverno, enquanto moradores locais nos achavam loucas”, lembra. “Descobrimos o churrasco, a feijoada, nós íamos a escola, corríamos no meio das árvores do quintal, a maioria frutífera, andávamos de cavalo por entre as plantações de eucaliptos. Cresci, fiz amizades e ao final de três anos, fui embora”, complementa Synnöve.
A família, depois da construção da fábrica, foi para a Bahia. Depois se mudaram para Campinas-SP, onde ainda hoje permanecem três filhas. Yngve e Åsa, depois de viverem em diferentes cidades no Brasil, e interior do Estado, optaram por morar em Guaíba. A mãe, Iris, morreu em 2000 e o pai em 2009. “Os dois já não estão mais aqui, mas aqui no Brasil eles viveram até o fim, sem nunca terem mencionado que gostariam de voltar para a Finlândia”, comenta Synnöve.

DEPOIS DE 50 ANOS

‘Aprendi a ver a vida com “a primeira visão” ou a visão do primeiro olhar, aquele que vê e vivencia, tentando não julgar, pois as coisas não são como sempre foram, tudo está em constante mutação e só cabe a nós tirar o melhor proveito disso. Que assim seja.”, escreveu a ilustradora Synnöve no texto que marca os 50 anos da família no Brasil.
“Há muito mais para contar sobre tudo que vivenciamos no Brasil, e também muitas histórias sobre a família e os nossos antepassados. Se tudo der certo, um dia vou transformar essas memórias num livro”, destaca Åsa no outro texto. As duas versões de textos sobre a vinda da família escritas pelas filhas Åsa e Synnöve podem ser conferidos nos links https://livrepensadoraweasley.blogspot.com/2020/04/abandonados-em-santos.html e http://agenciasn.com.br/arquivos/17238.

FOTO ACERVO FAMÍLIA

Publicado no jorna limpresso 01 de maio 2020